BAIXAS

fevereiro 18, 2007

Emaciado e debilitado, Sasan Safavian fala com muita dificuldade. Nos 18 meses anteriores perdeu 18 quilos. O iraniano Safavian começou a agonizar em 1983, quando – como voluntário aos 16 anos no serviço de ambulâncias – foi vítima não apenas uma mas duas vezes de ataques iraquianos com armas químicas. “Por toda a parte havia sapos e aves caídos, mortos. Minha garganta começou a sangrar e bolhas cheias de sangue surgiram em todo o meu corpo. Não acreditávamos que um país muçulmano seria capaz de usar armas químicas contra outros muçulmanos.” O governo do Irã fornece a Safavian inaladores e sacos de medicamentos que o ajudam a sobreviver, mesmo não havendo cura para os estragos causados em seu corpo pelos gases tóxicos iraquianos.

Já o atual governo russo nega, como seu antecessor soviético, responsabilidade pelo destino de Alexander Vyatkin. As autoridades disseram que um lote de ‘carne estragada’ provocou, em 1979, a morte dele e de no mínimo 67 outras pessoas em Sverdlovsk. Ninguém explicou porque se usaram trajes de proteção NBC para lidar com vítimas de intoxicação alimentar. Aos 80 anos, Olga Vyatkina apoia-se numa bengala enquanto fita impassível a sepultura coberta de neve onde enterrou seu filho único, de 27 anos. Ele desmaiou na rua, a alguns quarteirões do Bloco 19, onde o Exército Vermelho produzia secretamente anthrax como parte do vasto programa soviético de armas biológicas. “Eles anotaram ‘septicemia’ no atestado de óbito. Só depois começamos a ouvir rumores de que havia sido o anthrax. Os funcionários do necrotério recusaram-se a vestir o corpo. Até hoje ninguém jamais nos disse que o anthrax o matou. Tudo o que fizeram foi nos dar 40 rublos, com os quais compramos roupa para o funeral.”

Em 1998, alarmado com a ameaça de guerra biológica, o Pentágono começou a vacinar os militares americanos contra o anthrax. Ronda Wilson era a única piloto feminina de sua esquadrilha de helicópteros. Ela deixou de menstruar após a primeira dose da vacina. Depois, perdeu um terço do peso, devido a uma paralisia estomacal. Ao saber das vítimas – incluindo 3 mortes – causadas pela vacina, os militares começaram a se recusar a tomá-la. 400 vítimas da vacinação se afastaram – ou foram afastadas – do serviço militar. Condenada à terra, Ronda Wilson passa a maior parte do dia deitada em posição fetal, a única em que encontra algum conforto. Anthrax inalável é letal em quase 100% dos casos. Os especialistas consideram que, diante disso, os efeitos colaterais da vacina são aceitáveis. O governo americano planeja estocar vacinas também para civis.
Em 1995 membros da seita Aum Shinrikyo liberaram gás Sarin no metrô de Tóquio, matando 12 pessoas. Desde esse dia, Sumiko está em estado vegetativo. Seu marido, Yoshiyuki Kouno não odeia os terroristas que deixaram inválida sua mulher. Ele não tem tempo para isso. Toda noite, ao voltar do trabalho, ele vai visitá-la, passa loção nas mãos e no rosto dela, a abraça e conta como foi seu dia. Tem feito isso nos últimos sete anos.
Sumiko volta à casa de repouso depois de mais uma de muitas estadas no hospital – dessa vez por causa de uma pneumonia. Lynn Johnson, repórter da National Geographic que registra a cena, nota que o intérprete japonês que a acompanha tem lágrimas os olhos:

“Ele está dizendo a sua mulher o quanto ela é bonita.”

FONTE: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL, EDIÇÃO NOVEMBRO/2002

2 Respostas to “BAIXAS”

  1. Prussiano Says:

    Esse Dorn me inspira🙂


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