Tributo às legiões

fevereiro 18, 2007

A herança militar romana vive

(artigo originalmente publicado na Revista eletrônica Front, edição 01, julho/agosto de 2004)

“You can fly over a land forever; you may bomb it, atomize it, pulverize it and wipe it clean of life but if you desire to defend it, protect it, and keep it for civilization you must do this on the ground, the way the Roman Legions did, by putting your young men into the mud.”
T.R. Fehrenbach, This Kind of War

“O acampamento das forças de ocupação fervilha de atividade. Os informes de Inteligência indicando uma iminente incursão por parte das forças inimigas foram confirmados pela descoberta dos restos mutilados de uma patrulha de reconhecimento dada como desaparecida. A unidade que fez o achado procedeu a uma busca de casa em casa numa localidade próxima, usando de força excessiva no trato com a população local, suspeita de dar abrigo aos atacantes. As queixas das autoridades nativas levaram o Comando a indiciar em corte marcial os responsáveis pelo ato, que aguardam detidos o desenrolar do processo. Ninguém quer que a situação se complique ainda mais com uma revolta popular. Engenheiros de combate reforçam as defesas externas do campo com trincheiras e armadilhas. Armas de apoio foram distribuídas ao longo do perímetro e os turnos de sentinela, reforçados. No interior do acampamento, ao cair da tarde, os homens se preparam para recolher-se a suas barracas, aproveitando as últimas horas do dia para efetuar a manutenção das armas, enquanto trocam piadas e estórias. Veteranos de campanhas pelos quatro cantos do mundo conhecido recordam e aumentam suas façanhas, conseguindo a admiração boquiaberta dos recrutas. Dois grisalhos combatentes conversam animadamente sobre seus planos para aposentadoria, um deles já tendo dado entrada na burocracia necessária. Ambos debatem acaloradamente o valor das pensões e outros benefícios, sendo discretamente observados por um recruta de aparência estrangeira. Este recebeu sua cidadania condicionada ao serviço militar e vê, no recrutamento, uma porta de acesso ás bênçãos da maior nação de todos os tempos. No crepúsculo, enquanto as sombras tomam conta do mundo, uma patrulha de reconhecimento retorna. Seu comandante dirige-se ao QG, no centro da guarnição, para reportar suas observações, enquanto os soldados se apressam em busca de uma refeição quente para encerrar o dia. Dois jovens oficiais conversam animadamente sobre as últimas novidades da produção cultural e da moda lá no centro do mundo. Receberam notícias frescas pelo último correio, juntamente com cartas melosas de suas noivas. Privadamente ambos já se confessaram a intenção de usar a carreira militar como trampolim para uma futura carreira política, ajudados por contatos familiares. Nas trevas, nativos furtivos procuram os oficiais de inteligência, para efetuar seus informes e receber a paga de sua lealdade“.

As cenas acima, que poderiam ser uma descrição do que se passou no Iraque ocupado sob as forças americanas este ano, são uma reconstituição mais do que provável de eventos ocorridos em Inchtuhill, guarnição romana anexa á linha de defesa norte da Inglaterra romana contra incursões dos bárbaros pictos e escotos das Terras Altas no fim do primeiro século depois de Cristo. Inchtuhill, a Pinatta Castra dos romanos,é o exemplar mais completo já achado de um acampamento militar romano. E através dele, vemos que muito do que hoje faz parte do dia-a-dia militar pode ter suas raízes traçadas até os dias das Legiões.

Até os cabelos – Todos os anos milhões de jovens ao redor do mundo ingressam na vida militar, como voluntários ou conscritos, servindo a todo tipo de regime e continuando as mais diversas tradições militares. Porém, uma coisa todos têm em comum: o ritual de cortar os cabelos, significando o abandono de sua individualidade e a adesão a algo maior que eles mesmos. O que nenhum deles imagina é que esse ritual remonta aos romanos e tinha razão prática: o corte raspado, curto impedia que o inimigo agarrasse pelos cabelos no combate corpo-a-corpo.

Disciplina de campo – Se a sua tropa fosse dizimada, como é que você ficaria? Na verdade, ficaria com 90% dela ainda… A decimatio era uma punição extrema aplicada contra unidades inteiras, geralmente por motim ou covardia diante do inimigo. Consistia na execução de 1 em cada 10 soldados da tropa, escolhidos por sorteio. A execução era levada a cabo pelos outros 9 legionários, usando as estacas das barracas. Morte a pauladas…

Reconhecimento e inteligência – Oficiais de inteligência eram conhecidos como speculatores. Dominavam a língua e os costumes dos países ocupados, e ocasionalmente trabalhavam sob disfarce. Batedores especialmente treinados, geralmente agindo em patrulhas de reconhecimento a cavalo, eram chamados exploratores.

Armas – Scorpio, a “ponto-cinquenta” romana – Similar a uma besta medieval ampliada, o Scorpio (escorpião) disparava flechas de ponta de ferro de 70 cm ou balas de chumbo. Era usada do mesmo modo que as metralhadoras atuais, para fogo de apoio e supressão. Seu alcance chegava a 370 metros e podia ser operada por um ou dois homens. Algumas eram equipadas com um carregador de flechas, sendo capazes de tiro rápido. Era uma arma de trajetória tensa, rápida, precisa e mortal. César conta que no cerco de Avaricum uma delas caçou homem após homem dentre os defensores das muralhas gaulesas.

Serviço militar e cidadania – A Espanha iniciou, em 2003, um programa de atração de imigrantes, onde oferecia a seus descendentes na América Latina a cidadania plena, condicionada à prestação do serviço militar. Na verdade, nada de novo. Nas legiões romanas, as tropas auxiliares estrangeiras também recebiam a cidadania depois de prestado o período de serviço militar (25 anos).A cidadania romana, com todos os seus benefícios (isenção de impostos, status legal diferenciado, participação nas distribuições de mantimentos estatais, etc.) era extensiva a toda a família do agraciado e era concedida por meio de um diploma emitido pelo Imperador. Exemplares desses diplomae são freqüentemente encontrados em escavações de ruínas romanas. O corpo principal da Legião era formado exclusivamente por cidadãos romanos, devendo ser a cidadania comprovada no ato do alistamento.

Pagamento e aposentadoria – O pagamento de um legionário era de 225 denarii (cerca de 50 dólares) anuais, pagos em 3 vencimentos. Era mais que um trabalhador romano ganhava na época e o poder aquisitivo do dinheiro era maior naquele tempo. Centuriões recebiam 3 vezes essa quantia e as tropas auxiliares estrangeiras, cerca da metade. Do pagamento do legionário eram descontados alimentação, roupas e equipamento. Apesar disso, os preços eram baixos e o legionário poderia, se quisesse, guardar boa parte de seus ganhos depositando-os num banco militar. Na época do Império, essa poupança era compulsória. Saque e despojos (praeda), basicamente escravos, aumentavam a remuneração. No ato da aposentadoria por tempo de serviço (honesta missio) o legionário recebia como provisão para a velhice um lote de terra e uma pensão, que na época do Império chegava a 3.000 denarii. Os soldados também eram aposentados por invalidez física (missio causaria), por razões governamentais (missio gratiosa) e por despensa desonrosa (missio ignomiosa). Colônias de veteranos aposentados eram formadas nos territórios conquistados, como postos avançados do Império. Algumas delas foram a origem de grandes cidades existentes até hoje como Colônia, na Alemanha (Colônia Augusta, fundada pelo Imperador Augusto).

A mula de Mário – Quando em marcha, o legionário carregava seu equipamento individual, o que incluía rações para um período de 3 (o mais comum) até 15 ou 20 dias. Também carregava ferramentas (serra, picareta, pá e foice), uma cesta, roupas extras, utensílios de cozinha, panela e copo. De acordo com a quantidade de rações, o peso carregado oscilava entre 15 e 35 quilos, o mesmo peso das mochilas militares modernas. Para facilitar o carregamento da sarcinae, como a tralha do soldado era chamada, tudo era arrumado num embrulho compacto, e levado na ponta de uma vara com forquilha levada ao ombro, chamada pelo nome de seu inventor, a Mula de Mário (muli Mariani). Antes da batalha, os embrulhos eram arrumados juntos, sob guarda. Levando sua carga, o soldado estava em regime de marcha pesada, impeditus. Sem ela, o regime era de marcha ligeira, expeditus. Sob chuva pesada, os escudos eram levados no alto da cabeça do legionário.

Rações e provisões – Trigo sobre a forma de farinha (cibaria) ou grão (frumenta) era a comida básica do legionário, aproximadamente 1kg por dia. Era entregue individualmente para o período de duas a três semanas. A moagem do grão e preparação da comida era feita pelos próprios legionários ou por alguém contratado pelos mesmos. Outros alimentos eram conseguidos por troca ou coleta de campo. Junto com as rações de reserva era carregado por mulas um pequeno moinho manual, onde cada legionário podia moer sua ração de grão. A cozinha era simples: a farinha era misturada com água e cozida na forma de mingau (o puls, de onde provavelmente vem a palavra polenta) ou assada na forma de pão ázimo (sem fermento). Vinho azedo (posca) era a bebida mais comum. Lembra quando o soldado romano dá uma esponja com vinagre pra Jesus crucificado? Pois é, não era maldade. Os legionários bebiam vinagre mesmo…

Treinamento constante – Em tempos de paz ou durante o inverno, instrução constante era levada a cabo, tanto a disciplina de marcha quanto o treinamento com armas. Manobras eram uma parte regular do treinamento e três vezes por mês uma marcha de no mínimo 16 quilômetros era executada. O nível de adestramento requerido dos cavalarianos também era alto. Como entre nós, exercícios e ginástica mantinham os homens em boa condição física e eles eram constantemente endurecidos pelo uso da pá, picareta e enxada, em tarefas constantes de construção e engenharia. Sob o Império, as tropas eram usadas na execução de obras públicas: canais, estradas, pontes, anfiteatros e etc.

Esta versatilidade de treinamento controlada por rígida disciplina se mantém perfeitamente adequada até hoje, na Era Atômica. E, por incrível que pareça, a guerra naqueles tempos era relativamente mais mortífera que nos dias de hoje. Na batalha de Dyrrachium nenhum dos soldados de César deixou a batalha sem ferimentos! Nenhuma lista de baixas produzidas em batalhas modernas entre as assim chamadas nações civilizadas se compara a isso.

“As grandes contribuições de Roma para a ciência militar foram a organização, disciplina, atenção aos detalhes, preparação antecipada e a percepção que as batalhas podem ser ganhas antes mesmo de serem lutadas”
McCartney

Fonte: Internet http://www.globalsecurity.org

Uma resposta to “Tributo às legiões”

  1. marco justino Says:

    Buenas….genial..me delicio com assunto da grandiosissima civilização romana….gratias enim hoc notitia emporium


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